quarta-feira, setembro 17

boundaries.

eu tento analisar meus pontos fortes e cruciais como se eu pudesse fazer algo com eles, mas ainda não estou certa que eles existam. e eu tento, meticulosamente organizando meus fichamentos e apostilas, minhas prateleiras e livros, roupas e papeis de embrulho, minimizar a confusão mental que não se apaga com a sequência de cigarros queimados. meus olhos ardem pela fumaça, que se confunde com as lágrimas, porque eu nunca estive no controle. eu também nunca fui suficiente naquele grau que eu precisei tanto pra me provar que eu podia ser alguma coisa. qualquer coisa.


eu derrubei alguma coisa e no instante seguinte eu só sabia que eu era um completo lixo. é como estar comendo macarrão e começar a chorar, e é só macarrão, mas o choro é devastador. quanto tempo eu tô aqui tentando lidar com a ideia de ter tentado a duras penas me consertar, como um objeto quebrado; mas sendo menos que um objeto, pois não existe serventia em mim. e eu continuo sem reparo nenhum. eu, descartável, teimei que queria durar. 


mas vi as fotos e fiquei tentando sentir o que eu sentiria se estivesse lá. eu projetei diálogos e sensações. mas eu derrubei algo, e fui voltar a mim, e a tudo que eu sou, enquanto na verdade não existe algo maior para além de um nada imaturo, fugindo às avessas da própria nulidade. 


vai, qualquer coisa mesmo. eu só queria ser. 
então, né. fui fazer aniversário. só não fiz foi alarde. coisa mais besta. minha mãe teria dito algo sobre eu precisar do mesmo deus que ela e reafirmar que me ama; teria, mas não fez nada disso, e não foi proposital, imagina, tanta coisa pra se pensar, aos cinquenta e dois anos tu também poderia te dar uma folga de ter que repetir o mesmo discursinho batido de todos os anos. não, a gente pode viver sem isso. a gente pode viver até sem presente do amor, a gente só não pode viver sem amor. mas espera, é o que eu já ia começar a dizer. começando que aos quatorze anos eu só queria morrer, mas antes eu também queria sentir um pouco desse barato de laboratório vulgarmente conhecido como amor. e pode-se perfeitamente esperar que não consegui. aos vinte e um, eu ainda quero morrer, e ainda não consigo sentir nem uma fagulhinha do dito cujo. mas em ambos os casos eu me aproximei dessa vibe, e foi nojento, foi nojento e dolorido. porque a primeira verdade universal é que there's no such thing as love. e a segunda é que a dependência psíquica tem uma incrível moral comigo. mas pras minhas ininteligíveis divagações eu faço um resumo didático: o que eu sou, dos quatorze até o presente infeliz momento, é trouxa. 
Eu parei de escrever quando pensei ter encontrado maneira melhor de limpar a minha própria merda. Foi tão natural apenas deixar correr o rio levando meus dejetos que eu não sentia direito o quanto de mim eu também tava abandonando. Eu não sei como pude ter a audácia de ainda estar viva quando há seis anos atrás eu comecei a sentir a mancha oleosa e acinzentada nas minhas paredes. Como é que deu tanto tempo? Qual é o meu segredo?

sábado, maio 31

Desnamorados.

Pilar, que dorme com a luz acesa há duas semanas.
Acir, que sai pra jantar sozinho com seus cupons de desconto.
Pilar, que desabotoa as roupas com a lentidão da melancolia.

Acir, doente, distribuindo cartões de visita e sorrisos distantes.
Pilar, serena, abraçando junto ao seio o álbum roto da família.
Acir, emburrado, ouvindo o rádio do taxi sintonizado na Universal.

Pilar se sente velha e desperdiçada.
Acir se achou nostálgico.
Pilar se disse "de vanguarda".

Acir pensou que ter ido embora foi acertado, mas sente falta dos discos antigos de Pilar.
Pilar começou um herbário novo, mas sente falta de Acir para colher as espécies do jardim botânico.

Acir, enfadonha. Pilar, quieto.
Seguem os dias. Desamparados.

minha versão da sua estrofe torta

1. todas as minhas forças autodestrutivas se concentram agora no que eu chamo de 
amor à prestação;

2. fantasiar é um erro;

3. é a minha atividade favorita todos os dias;

4. pergunte o quão insanamente isso apenas significa falta de amor-próprio;

5. não existe um jeito de converter mentiras em piedade;

6. setembro, setembro, setembro;

7. dicas de como livrar-se do seu senhor colérico e raivoso;

8. se surgir, embarque.


segunda-feira, abril 28

Eu disse que iria até o inferno contigo, mas eu não esperava que fosses me deixar por lá.

"oi... já pode falar? tá. desculpa. é que, mmh, eu tava sonhando contigo. agora eu acordei e fiquei com medo de esquecer tudo. não, foi sim, verdade. dessa vez (porque eu tinha sonhado antes, nem queria te contar) mas dessa vez eu sonhei que dançava girando pros lados, até ficar roxa de tonta, pra tu não ficar tão triste. sei lá também, eu devo ter pensado exatamente nisso, que tu tava triste pra caralho com aquelas pálpebras caídas. (que eu deveria ter beijado.) desculpa. isso, triste. eu não sei por que era a tua tristeza, mas ela tava lá. nas pálpebras, sabe? uma tristeza tão forte, e tava me contagiando. engraçado, pois é!, eu tava alegre, dançando, e tu tava miúdo, naquela pequenez de dor; mas depois eu fiquei triste também, porque as minhas maneiras de mexer o corpo eram muito desordenadas; também eram enfadonhas demais pros teus suspiros quentes de prisão. desculpa. acho que era isso que te deixou daquele jeito, triste; igual pássaro na gaiola que canta fininho. oi? só deixa eu terminar. desculpa. acontece que nesse sonho aí tu só saiu andando e manchou a parede só porque, dessa vez, a sujeira eu ia ter que limpar sozinha. achei uma sacanagem, nem avisou que tava indo, e eu já tava toda tonta... quando eu abri os olhos e vi que tu tinha saído, é, daí não ouvi nada do trinco da porta e pensei que tu não tinha nem batido ela direito. então, isso também foi engraçado até, porque eu ficava lá na beirada da cama rezando algo que parecia mesmo uma reza, e eu rezei várias vezes pra qualquer pessoa entrar pela porta destrancada e me matar, (risos) tipo, qualquer pessoa me matar de qualquer jeito. e depois eu fiquei rindo porque isso nunca aconteceria mesmo. eu sou louca até nos sonhos... (eu te conto os outros se tu quiser saber.) sei lá, a gente nunca vai morrer quando quer, né? (risos) que droga de sonho besta, tô ligada, mas tem outros melhores, eu conto se tu quis... o quê? cara, nem quero nada, não, só quis ligar pra dizer isso. dizer que eu tô sonhando contigo e tal. é verdade... desculpa. eu adoro o desenho das suas pálpebras. beijo."

como tem passado?

"cinco dias de hermética reclusão, Pure Heroine, treze cigarros, trepadas punitivistas, Carle. e você?"

Um aviso com dois dia de atraso.

Eles já se põem atarefados ao chegar da hora noturna
Suspensos por vigas da serenidade que invejo
Eu me pergunto aonde mais viajarão sem sair do lugar
Tão tristonhos que quase se sentem famintos
Posso pegar um bocado de seus amores?
Alguns dormem demais e por tanto tempo que esqueço de que estão lá
Enquanto no outro extremo, ela dorme pouco e enxuga as lágrimas com dedos amarelados
Nicotina
Prisão vitalícia
Abastados, asseados, boêmios
Algo de nauseante
Eu me pergunto onde eu me encaixo.

Hoje,
e ontem,
e naquela noite,
e no amanhecer liláceo que se seguiu,
revirei tuas coisas no chão deste quarto,
qualquer coisa pra simular uma loucura que se parecesse
com antigamente,
com sonho,
com qualquer coisa;
jorrei sangue pra aliviar a minha dor. 

Samba Triste

saudade, resto de amor


de amor que não deu certo.

quinta-feira, abril 24

Before I met him, I would dance in the shower. When he was in my life, I would think about showering with him. After he left, I would sit on the ground in the shower and cry. When I got over him, I showered so quickly there was no time for dancing, fantasies or tears. Someone can invade the smallest parts of your life, you won’t even realize it until you dance in the shower again and wonder why you ever stopped.

sexta-feira, abril 4

"A gente finge que arruma o guarda-roupa, arruma o quarto, arruma a bagunça. Tira aquele tanto de coisa que não serve, porque ocupar espaço com coisas velhas não dá. As coisas novas querem entrar, tanta coisa bonita nas lojas por aí. Mas a gente nunca tira tudo. Sempre as esconde aqui, esconde ali, finge para si mesmo que ainda serve. A gente sabe. Que tá curto, pequeno, apertado. É que a gente queria tanto. Tanto. Acredito que arrumar a bagunça da vida é como arrumar a bagunça do quarto. Tirar tudo, rever roupas e sapatos, experimentar e ver o que ainda serve, jogar fora algumas coisas, outras separar para doação. Isso pode servir melhor para outra pessoa. Hora de deixar ir. Alguém precisa mais do que você. Se livrar. Deixar pra trás. Algumas coisas não servem mais. Você sabe. Chega. Porque guardar roupa velha dentro da gaveta é como ocupar o coração com alguém que não lhe serve. Perca de espaço, tempo, paciência e sentimento. Tem tanta gente interessante por aí querendo entrar. Deixa. Deixa entrar: na vida, no coração, na cabeça." 

quinta-feira, março 27


there was nothing in the world that I ever wanted more
than to feel you deep in my heart. there was nothing in the world that I ever wanted more than to never feel the breaking apart of all my pictures of you.

segunda-feira, março 24


não tenho amigos nessa cidade. mas tenho a companhia demoníaca e cheia de todas as lembranças da primeira vez em que, largo e perfumado, setembro sorriu pra mim. no próximo, eu própria terei virado lembrança desfigurada também. não ameaço. são apenas os caminhos naturais das coisas. você pode fisgar a tendência de algo se repassá-lo com cuidado e esmero na mente.
sou uma planta abandonada sem irrigação. sou morte, em caule e em flor. se não estanco o sangue das minhas mordidas, me jogo em ombros que me deixam chorar o coração partido. minha última refeição já dura horas. agora, serão dez anos de sonhos conturbados, respiração falha, amantes desprezados.
acabou o estoque de sonhos para esta ruidosa morada. mas quando setembro estiver aqui, também eu serei a lembrança mais gentil dessa temporada.
"Eu tenho sabor de quê?"
lu.

segunda-feira, fevereiro 3

Janeiro foi quando te arrastaram do meu lado. Você não protestou. Eu ouvi coisas sobre você como se elas andassem de mãos dadas com o vento. Um vento que passava levando as palavras como um borrão auditivo. Eu sabia que você era problema, mas tudo em você tinha um sabor bom. Sou filho da pós-modernidade, sou autojustificável por ser hedonista. Eu fiz aquele pacto sem saber por que você gostava de se machucar a qualquer pretexto. E eu fui apressado. Muito. Você detesta minha pressa, a pressa em todas as pessoas. Ela é impeditiva. Ela me impediu de ler você quando eu já não fazia distinção entre pingos de chuva e passos de desconhecidos. Você tentou me alertar. Suas mãos segurando meu rosto e meus olhos fixos nos seus lábios, que moviam. Foi o momento que tive a certeza, eu era seu. Sem o menor esforço você me tinha por inteiro. Eu doí por isso, e me alegrei por isso. No instante seguinte os mesmos lábios jaziam colados muito forte aos meus. Eu bebi suas lágrimas por todas aquelas semanas. Você tirou tudo que eu tinha pra dar. Aplacou minhas crises febris. Você, etérea, me esterilizou, me traiu. Levou embora minha pressa. Os pingos de chuva agora são apenas os pingos de chuva.