quarta-feira, julho 6

Metade homem. Agora metade fantasma.

No mesmo rosto onde dias antes vira-se um dos mais sinceros sorrisos que ele podia dar, agora restava aquele velho bocejo triste que chega depois dos soluços e lágrimas. Seus olhos esboçavam nitidamente tons de vermelho como uma hemorragia ocular incontida. E como estavam inchados, borrados pela maquilagem negra... Ele tinha um coração tão apertado e doído, perfeitamente esburacado, exatamente como se uma rajada de balas o tivesse atingido. Fedia à nicotina doce.
Eu podia sentir sua dor começando a me encher o estômago devagar, perfurando meu interior, em algum ponto outrora dormente. Foi quando decidi que só poderia gritar o que via:
- AH, NOSSA, ENTÃO VOCÊ SÓ VAI ACEITAR TODA ESSA MERDA DELES SEM FAZER NENHUMA PORRA DE COISA?
- (...)
Fechei os olhos ardidos e úmidos pra não tornar a abrir.
Não os abri nem mesmo quando ele sorriu ruidosamente e respondeu que eu sabia, por Deus, eu sabia que ele era tudo o que eu tinha, tudo que eu era agora. E afinal nós dois éramos a mesma coisa estranha que chorava e se feria e se isolava sempre.
Aquela voz não era a mesma que eu lembrava ter.
Só aceitei o fato de que eu fedia à nicotina doce.

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