sábado, maio 22

gotas de cristal.

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Seus tufos de cabelo acinzentados serpenteavam despreocupados e irresponsáveis, como se estivessem embriagados, encharcados de vinho português barato. Na verdade estavam sendo arrastados com o vento cruél oriundo de um fim de tarde chuvosa. O cabo de segurança do objeto cortante oprimia-se em sua pequena mãozinha fechada com firmeza, como se ele lhe pudesse escorregar por entre os dedos gelados e compridos. Andava, andava, andava. Seu andar era inexorável, porém de uma graciosidade ímpar, capaz de deixar o mais distraído dos transeuntes instigado e, mais do que isso, intrigado. Admirado, por que não? Seu porte tão pequeno e pueril era um insulto à cena cinzenta das ruas sem asfalto, cobertas pela mais nívea das neves. Ela era uma criança um pouco sozinha demais, e um pouco ofendida demais pra compreender a crueldade que transbordava de suas próprias palavras. Era jovem e inexperiente demais pra compreender o próprio ódio vil e pungente, que latejava em cada uma de suas veias azuis, veias que eram escandalosamente visíveis através daquela pele alva e macia. Era o ódio que a impelia a matar. Não somente o ódio secundário que sentia pela outra menina com sorriso manchado de lua, mas o ódio primário: o dela mesma, por ela mesma. Era um jogo sanguinolento e triste, mas lhe garantia algum tempo a mais pra sobreviver. Mataria, pois era assim, e só assim que ficaria viva. Mataria pra não morrer aos poucos. Era a ausência de sua menina que a fazia sentir o peito arfante de agonia sendo perfurado pela dor. Era ouvindo as mentiras, que ela arquitetava seu crime apaixonado. A vontade proibida de ter sua menina de volta lacerava e mastigava todo e qualquer vestígio de sanidade dentro dela. Mataria porque amava. Porque, no fim do seu conto de fadas, o genial escritor foi assassinado antes que pudesse escrever as últimas linhas que moldariam o destino dela: "E assim, viveram felizes para sempre".

Um comentário:

Pedro Belenos disse...

Minha nossa Jessy, com o tempo você esta escrevendo cada vez melhor, sempre penso que não pode ficar melhor, mas você vai e escreve alguma coisa que é simplesmente incrível, como esse texto "gotas de cristal" eu simplesmente adorei!
Beijos