domingo, maio 16

Minha confissão resume toda essa vida obscura e fingida que eu tenho sustentado a duras penas. Começa bem aqui. Com todas essas lágrimas insistentes e pesadas, e salgadas e doloridas, e o sangue, e o rubro desse mesmo sangue que percorre a curta extensão da pele menos exposta. Percorre queimando, marcando. É tão mais fácil fingir sorrisos forçados e meras piadinhas desprezíveis do que revelar a qualquer um que seja o que realmente me atormenta. A pungência desconhecida do vazio. Vazio que só tende a aumentar, aumentar, apertar. Sendo rasgado sem misericórdia. Então não acham que aqui por dentro, ele já está grande demais? Eu acredito piamente nisso. Sentir repulsa de si mesma por tanta sensibilidade destrutiva e amoral... É como derreter-se por completo até a próxima surra, que nunca tarda. Sentimentos abjetos latejam vinte e quattro horas dentro de algum lugar intocável, aqui dentro de mim. Eu nunca fui jovem o bastante, eu nunca fui qualquer coisa honesta. Pueril obsessão, pueris palavras doces, pueril coração sanguinolento. Pueril sou toda eu.
Agora eu posso desaparecer por completo, apesar da relutância da minha alma ferida e mentirosa. Irei embora mancando. Rastejando. Mas vou embora, e esse é meu único e mais desolador alento.
Esquecer. Mentir pra esconder. Desaparecer, somente.

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